O Brasil distópico em Divino Amor

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Foto: Divino Amor / Divulgação

Fábio Ronaldo

Divino amor é a mais recente produção do diretor pernambucano Gabriel Mascaro (Boi Neon, Ventos de Agosto) e que apresenta um Brasil distópico e, predominantemente, neopentecostal.

Ao longo do filme, a voz de uma criança explica o funcionamento daquela sociedade e, logo no início, diz que naquele Brasil de 2027, as pessoas não se divertiam mais com o carnaval, mas em raves religiosas como a festa do “amor supremo”, balada em que o tecnogospel ditava o ritmo.
O longa-metragem conta a história de Joana (Dira Paes), evangélica, funcionária pública e que acredita ser a família o centro do evangelho. Mascaro apresenta a questão da laicidade do Estado, ao mostrar que Joana utiliza a posição que ocupa no trabalho para convidar casais que estão por se divorciar para participarem de uma terapia de reconciliação no grupo “Divino Amor.

Mesmo agindo de forma ilegal, Joana acredita estar cumprindo uma missão divina. Ao manipular essas pessoas, ela colocava em prática os ensinamentos do evangelho, evitando a separação dos casais e a desintegração das famílias. Em casa, ela tinha uma espécie de altar com imagens de todos os casais que foram convertidos.
Mesmo empenhada em “resolver” o problema dos casais, Joana não conseguia realizar o desejo de ser mãe pois o marido, Danilo (Júlio Machado) que trabalha fazendo coroas de flores para funerais, é infértil. Esse é o grande problema do casal central que não consegue gerar um filho e que vive a rotina de casa-trabalho-igreja.

Semanalmente, Joana e Danilo participam do encontro de casais “Divino Amor”. Nestas reuniões só participam casais que comprovam o matrimônio apresentando documentos.

Com o lema “quem ama não trai, quem ama divide”, guiados por uma orientadora, os participantes além da leitura da bíblia, praticam swing (troca de casais), pois o maior objetivo do grupo “Divino Amor” é fazer com que os casais superem as discórdias e permaneçam unidos. E será em uma dessas reuniões que Joana engravida, vivenciando um grande calvário com essa “benção”.

O diretor já “profetizava” uma prática que vem se tornando habitual em vários lugares do mundo, devido a pandemia causada pelo Covid-19, que é o drive thru. No filme há o drive thru de aconselhamento espiritual, representando uma religião individualista, em que o pastor (Emilio de Mello) atende uma pessoa com direito a frases de efeito ao som de música gospel.

Como uma boa ficção futurista, Divino Amor traz discussões bastante atuais (fundamentalismo religioso, nacionalismo exacerbado, controle biopolítico da vida). O futuro para Mascaro não tem cor, é sem alegria, com pessoas tristes, apáticas, cada vez mais hipócritas e intolerantes, que não conseguem por em prática o amor genuíno professado pelo Apóstolo Paulo na primeira epístola aos Coríntios: não maltrata, é bondoso, paciente, sem inveja, sem orgulho. É o amor que tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta.

Ficha Técnica

Divino Amor – Brasil, 2019.
Direção: Gabriel Mascaro
Roteiro: Gabriel Mascaro, Rachel Ellis, Esdras Bezerra, Lucas Paraízo
Elenco: Dira Paes, Júlio Machado, Emílio de Mello, Teca Pereira, Mariana Nunes, Thalita Carauta
Duração: 100 min

Pelo mundo:

  • Divino Amor estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2019.
  • Tem a nota 86/100 no Metacritic (site que apresenta o ranking dos filmes mais bem analisados pela crítica especializada internacional)
  • Indicado como um dos melhores filmes do ano na revista inglesa Sight and Sound.
  • Divino Amor aparece na lista Top 10 na plataforma The Film Stage.
Cartaz / Divulgação

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