Incêndios – Onde começa a sua história?

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Foto: Divulgação

Fábio Ronaldo

Quantos segredos você carrega? Quais conflitos e horrores podemos suportar por causa do amor? A ciência tem a resposta para tudo?

Essas são algumas das questões que ficam, após assistir Incêndios Incendies, 2010) produção franco-canadense de Denis Villeneuve (Blade Runner 2049, A chegada) e baseada na peça teatral de Wajdi Mouawad.

Jeanne (Mélissa Désourmeaux-Poulin) e Simon (Maxim Gaudette) acabaram
de perder a mãe Nawal Marwan (Lubna Azabal) e ficam conhecendo seus os últimos desejos no testamento lido pelo notário Jean Lebel (Remy Girárd), chefe da falecida. Os filhos ficam sabendo que o pai está vivo, que eles têm um outro irmão e que precisam entregar uma carta para cada um. Muita informação ao mesmo tempo, não é mesmo?

Mas, além dessas descobertas, Jeanne e Simon deverão enterrar a mãe sem
caixão, nua e com o rosto virado para o solo. Caso o desejo de Nawal não seja cumprido, eles não deverão colocar uma lápide sobre a sepultura, nem mesmo o nome da mãe. “Não há lápide para aqueles que não cumprem suas
promessas”, diz a carta.

Se cumprirem os últimos desejos da mãe, eles também receberão uma carta.

O olhar de tristeza e ódio de uma criança, em uma das primeiras cenas, já nos dá pistas de que o filme tem mais camadas do que poderíamos imaginar, não sendo apenas uma busca de dois irmãos pelo pai, mais quase uma “tragédia grega”.

Jeanne é a única que resolve encontrar o pai e o novo irmão para entregar as cartas. Buscar e conhecer o passado da mãe é também tentar compreender a própria existência.

Villeneuve apresenta a história sem nos situar em que país acontece. As
regiões são nomeadas como “o sul” e “a cidade”. O que é certo é que a história se passa no Oriente Médio. Pelo o período e os fatos históricos que são apresentados, podemos imaginar que é no Líbano devido o conflito existente entre muçulmanos e cristãos. O fato de deixar essa ponta “solta” nos mostra que a intenção do diretor está centrada nas pessoas e o quanto os horrores do cotidiano podem marcar para sempre a nossa vida.

A religião, elemento bastante presente na narrativa, se torna um motivo para legitimar determinadas ações humanas. Em vários momentos o filme mostra situações de guerra e barbárie ocorridas por conta da religião em que, aquele que não professa a mesma fé é tido como um estranho que causará instabilidade, logo, deve ser morto, não importa se é adulto, idoso ou criança.

A mídia, bem mais do que historiadores, nos ensinou que “matar em nome de Deus” é uma atitude extremista do Islã, mas o diretor nos mostra que não é bem assim. A intolerância e o fanatismo religioso não pertencem a religião nenhuma, então não estranhe quando ver imagens de santos católicos pregados em metralhadoras de assassinos que matam crianças e incendeiam ônibus.

Incêndios ocorre em dois tempos, no passado, quando é mostrada a história de Nawal Marwan, uma jovem cristã que se apaixona por um mulçumano e no presente, com a busca de Jeanne sobre o passado da mãe e o encontro com seus parentes desconhecidos. Mas ela é avisada pelo zelador de uma escola: “as vezes é melhor não saber de tudo”.

O final da história é doloroso, tal qual a vida de Nawal, e aí compreendemos o título do filme. Verdades causam incêndios, mas também iluminam aquilo que estava na escuridão do indizível.

Incêndios (Incendies) — Canadá/França, 2010
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Denis Villeneuve, Valérie Beaugrand-Champagne (consultora),
baseado em peça de Wajdi Mouawad
Elenco: Mélissa Désourmeaux-Poulin, Lubna Azabal, Maxim Gaudette, Rémy
Girard
Duração: 139

Imagem: Cartaz / Divulgação

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