Sem alternativa definida, fim do auxílio emergencial deixa milhões na incerteza

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“O fim do Auxílio Emergencial vai colocar mais cinco milhões de pessoas na pobreza e na pobreza extrema”, revelou o economista e pesquisador da FGV/ Ibre, Daniel Duque

Foto: Marcello Casal / Agência Brasil

Correio Notícias, com Correio Braziliense

O Auxílio Emergencial está chegando ao fim sem que o Governo Federal tenha conseguido criar um novo programa social. Diante do cenário, economistas já projetam avanço da pobreza, aumento do desemprego e desaceleração do crescimento econômico brasileiro no início de 2021.

De acordo com o calendário de pagamentos da Caixa Econômica Federal, os depósitos do benefício chegaram a quase 68 milhões de pessoas e se encerram no próximo dia 29. Por isso, brasileiros como Wenne Rodrigues da Silva, 30 anos, já se dizem desamparados. “A gente vive desse pouco dinheiro que o governo fornece”, explica, que está desempregada e cuida sozinha de dois filhos pequenos. Moradora de Águas Lindas de Goiás, Wenne diz que está disposta a trabalhar com o que aparecer para sair dessa situação — “babá, cozinheira, auxiliar de cozinha, de tudo um pouco, eu faço” —, mas lembra que não está fácil achar um trabalho.

A situação é parecida na casa de Raquel Cardoso, 37. Moradora de Valparaíso, ela está desempregada e é mãe de cinco filhos, inclusive uma de recém-nascida. “Não sei o que vai ser. Tenho um bebê para cuidar e não posso deixá-lo sozinha para trabalhar, pois, até hoje, eu o amamento. Esse dinheiro foi o que garantiu a compra de comida, pagamento de contas básicas e o mínimo que precisávamos para sobreviver”, lamentou. Ela torce para que o filho mais velho consiga alguns bicos para levar dinheiro, ainda que pouco e incerto, para casa. “É triste estar na minha situação e não saber o que fazer”, admitiu.

Mesmo os trabalhadores informais, no entanto, têm se deparado com rendimentos insuficientes. A diarista Verônica Rodrigues, 42, por exemplo, diz que atualmente só tem duas diárias garantidas. Por isso, estava contando com o Auxílio Emergencial para se manter. Agora não sabe como vai conseguir fazer a feira, pagar o aluguel, as contas de água e de luz da casa em que vive com a filha em Águas Lindas. “Quem trabalha de diarista, hoje, tem; amanhã, não tem”, revelou.

O tamanho do desespero já começou a ser visto nos últimos dias, quando filas voltaram a se formar nas agências da Caixa Econômica Federal nos dias de depósito do benefício. Mas, de acordo com analistas, ficará ainda mais evidente nos próximos meses.

Pobreza

Economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/ Ibre), Daniel Duque, calcula que a extrema pobreza, que já atinge 13,6 milhões de brasileiros, vai crescer e pode até dobrar no Brasil no início de 2021. “O fim do Auxílio Emergencial vai colocar mais cinco milhões de pessoas na pobreza e na pobreza extrema, em relação ao período anterior da pandemia, porque o mercado de trabalho ainda está longe de se recuperar, principalmente, para a população informal”, disse. Duque calcula que a extrema pobreza, que considera as pessoas que vivem com menos de US$ 1,90 por dia e atingia 6,9% da população brasileira, em 2019, caiu para 3,3% em meio à pandemia de Covid-19, por conta do benefício. Porém, pode alcançar algo em torno de 10% a 15% dos brasileiros no próximo ano, atingindo mais de 20 milhões de pessoas. Já a pobreza, que considera as pessoas que vivem com menos de US$ 5,50 por dia e atingia 24,7% da população brasileira, no ano passado, deve variar entre 25% e 30% da população em 2021.

Com isso, o Brasil ainda deve sofrer uma elevação da taxa de desemprego, que já bateu o recorde de 14,6% nos últimos meses. Segundo o professor de economia do Insper e CEO da Siegen, Fabio Astrauskas, o desemprego pode chegar a 20% em 2021, com a entrada de 7 milhões de brasileiros na busca por uma ocupação. Isso significa que o número de pessoas, que está na fila do desemprego, no país, saltaria dos atuais 14,1 milhões para cerca de 20 milhões.

O economista Astrauskas explica que, nos últimos 12 meses, 13,7 milhões de pessoas saíram da força de trabalho e calcula que, pelo menos, metade desse contingente vai voltar a pressionar a taxa de desemprego, devido ao fim do Auxílio Emergencial. “Há um grupo de desalentados que está fora do mercado de trabalho, porque sabe que está difícil encontrar emprego e está recebendo a ajuda do governo, mas que deve voltar a procurar uma vaga assim que o Auxílio Emergencial terminar”, pontuou.

Ele avisa que boa parte dessas pessoas corre o risco de não conseguir um emprego logo no início do ano, já que o mercado de trabalho e a economia brasileira não devem se recuperar tão rapidamente. “Não vamos conseguir gerar tanto emprego num curto espaço de tempo. Então, o aumento do desemprego será uma consequência direta do fim do Auxílio Emergencial”, atentou.

Com desemprego em alta e o aumento da pobreza, os economistas também preveem uma barreira a mais para o consumo e a recuperação econômica. Por isso, projetam que a atividade econômica, que vem se recuperando do baque provocado pela pandemia nos últimos meses, deve desacelerar no início do próximo ano, até que o governo consiga destravar as questões fiscais e as reformas estruturantes, que, hoje, impedem o aumento dos investimentos públicos e privados.

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