Preço dos alimentos sobe quase três vezes a inflação em um ano de pandemia

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O IPCA voltou a acelerar em fevereiro, fechando o mês em 0,86%, ante 0,25% no mês anterior

Em apenas um ano, o arroz ficou 69,80% mais caro. (Foto: Sergio Lima / Poder 360º)

Folha de São Paulo

Em 12 meses desde o início da pandemia do novo coronavírus, o preço dos alimentos subiu 15% no país, quase três vezes a taxa oficial de inflação do período, que ficou em 5,20%. A informação foi confirmada nesta quinta (10), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Foi a primeira divulgação do IPCA compreendendo 12 meses sob influência da pandemia, decretada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), no dia 11 de março de 2020.

Com forte pressão dos reajustes da gasolina, o IPCA voltou a acelerar em fevereiro, fechando o mês em 0,86%, ante 0,25% no mês anterior. Segundo o IBGE, foi a maior alta para fevereiro desde 2016.

Alimentos pressionaram inflação em 2020

Com a alta dos alimentos, a taxa acumulada em 12 meses foi a maior desde janeiro de 2017, disse o gerente da pesquisa do IBGE, Pedro Kislanov. “A evolução vai depender do comportamento de alguns produtos com grande peso na inflação, como alimentos e combustíveis”, comentou ele.

A pressão inflacionária tem levado o mercado a constantes revisões de suas expectativas. Na última divulgação do relatório Focus, do Banco Central, nesta segunda (8), a projeção para 2020 subiu pela nona semana seguida e chegou a 3,98%, de 3,87% na semana anterior.

Para os próximos meses, a expectativa é de pressões ainda maiores dos preços da gasolina, item com maior peso na composição do IPCA, que já foi reajustada nas refinarias seis vezes desde janeiro e que, sem refresco do dólar, deve manter tendência de alta.

Em nove meses, desde que o preço do petróleo começou a se recuperar do tombo inicial da pandemia, a gasolina já subiu 27,98%, disse o IBGE.

A escalada dos preços dos alimentos atingiu em cheio o consumidor já no início da pandemia, tornando ainda mais difícil a travessia dos meses de isolamento social e perda de renda provocada pelo fechamento de negócios e aumento do desemprego.

Nestes 12 meses de pandemia, o preço do óleo de soja subiu 87,89%, o arroz ficou 69,80% mais caro e a batata está custando 47,84% a mais. O preço do leite longa vida, outro produto sob grande pressão, subiu 20,52%.

Em 2020 governo chegou a anunciar medidas para tentar conter a escalada, como a isenção de impostos para a importação de arroz, mas os impactos foram pequenos. A alta do custo de vida já se tornou tema de campanhas contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nas redes sociais.

Kislanov diz que, com o fim do auxílio emergencial, a queda de demanda por alguns produtos já começa a se refletir nos preços de alguns alimentos, como arros e leite longa vida, por exemplo.

Em fevereiro, a inflação do grupo alimentos e bebidas subiu 0,27%, menos do que os 1,02% registrados em janeiro, quedas nos preços de produtos como batata-inglesa (-14,70%), tomate (-8,55%), leite longa vida (-3,30%) e óleo de soja (-3,15%).

“Essa desaceleração na passagem de janeiro para fevereiro é explicada principalmente por alguns itens que haviam subido bastante ao longo do ano passado, como o óleo de soja e o arroz. Por outro lado, as carnes tinham tido uma ligeira deflação em janeiro, com queda de 0,08%, e agora voltaram a subir”, diz Kislanov.

O gerente do IBGE diz que ainda é difícil prever o desempenho do preço dos alimentos nos próximos meses. “No caso da soja, por exemplo, tem expectativa de safra recorde, que pode baixar o preço, mas também tem a questão do dólar que pode ter impacto para cima”, comentou.

A principal contribuição positiva para o IPCA de fevereiro foi o grupo transportes, com alta de 2,28%, influenciada pelo aumento de 7,11% no preço da gasolina. Já no campo negativo, o maior impacto veio da energia elétrica (-0,71%), com a manutenção da bandeira amarela na conta de luz.

Com alta de 2,48%, o custo da educação também teve contribuição importante para elevar a inflação no mês. O maior impacto veio dos cursos regulares (3,08%), que já costumam ter impacto inflacionário nesta época do ano, diante dos reajustes anuais.

“Em fevereiro, nós captamos os reajustes das mensalidades cobradas pelas instituições de ensino. E além disso, verificamos que em alguns casos houve retirada de descontos aplicados ao longo do ano passado no contexto de suspensão das aulas presenciais por conta da pandemia”, disse o gerente do IBGE.

Juntos, transportes e educação representaram 70% do IPCA de fevereiro.

O IPCA acumulado em 12 meses ficou bem próximo ao teto da meta de inflação estabelecida pelo Banco Central para 2021, de 5,25%. O cenário gera no mercado expectativas de elevação na taxa básica de juros na semana que vem. Desde agosto de 2020, a Selic está inalterada em 2%.

Kislanov avalia que não há pressão de demanda que justifique o aumento da inflação. A principal contribuição do mês, argumentou, veio de preços administrados, com a gasolina. Na inflação de serviços, foi o reajuste dos cursos regulares.

“Estamos em um período de muitas incertezas”, frisou, citando o aumento do número de mortes, o aumento das restrições à circulação e a possibilidade de volta do auxílio emergencial como fatores que também ajudarão a definir a evolução do IPCA.

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