Reforma ministerial feita para agradar parlamentares do Centrão

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Algumas demissões eram mais que aguardadas, como a saída de Ernesto Araújo, expulso da Esplanada após entrar em choque frontal com senadores

Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. (Foto: Sérgio Lima / Poder360)

Correio Braziliense

O presidente Jair Bolsonaro entendeu o recado e, em apenas um dia, tratou de mudar a equipe ministerial para atender às exigências de quem mencionou “remédios políticos amargos” e alertou para a necessidade de se fazer um “freio de arrumação”, a fim de evitar danos maiores ao governo e ao país. Algumas demissões eram mais que aguardadas, como a saída de Ernesto Araújo, expulso da Esplanada após entrar em choque frontal com senadores. Também estava prevista uma abertura para o Centrão, que já havia indicado até uma titular para o Ministério da Saúde. Mas outras substituições surpreenderam. Pressionado pelos efeitos políticos de uma pandemia que já matou mais de 300 mil brasileiros, Bolsonaro decidiu trocar não apenas um, mais seis ministros, entre demissões e remanejamentos. Ficou ainda mais ligado ao Centrão e elevou a tensão com os militares.

A demissão de maior impacto foi a do general Fernando Azevedo e Silva. A declaração do ex-ministro da Defesa, que reservou as “Forças Armadas como instituições do Estado”, abriu o segundo flanco da crise política -— a queda de braço entre os militares e o Planalto. Ao longo do dia, a Esplanada foi ganhando novos contornos. Em questão de horas, Bolsonaro mexeu na Casa Civil; na Secretaria de Governo; na Advocacia-Geral da União; no Ministério da Justiça. Com a saída de Azevedo e Araújo da Defesa e do Itamaraty, o presidente trocou seis casas.

A reforma significa a entrada do Centrão no Palácio do Planalto. A Secretaria de Governo da Presidência da República ficou com a deputada federal Flávia Arruda (PL-DF). Ela será a responsável pela articulação política do governo, em subsituição ao general Luiz Eduardo Ramos. Ele foi para a Casa Civil, com a transferência do general Braga Netto para a Defesa.

A dança das cadeiras também passou por André Mendonça, que estava no Ministério da Justiça e Segurança Pública. Ele volta para a Advocacia-Geral da União (AGU), cargo que ocupou até abril do ano passado. Mendonça substituirá José Levi, demitido após não ter assinado ação que o presidente Bolsonaro apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra governadores.
No posto do Ministério da Justiça e Segurança Pública, assume o delegado da Polícia Federal Anderson Gustavo Torres, que era Secretário de Segurança Pública do Distrito Federal.

Congresso

Deputados e senadores viram com ceticismo as mudanças feitas por Jair Bolsonaro no governo. Para parlamentares, Bolsonaro passou três sinais, e nenhum deles é positivo. A presença da deputada Flávia Arruda na Secretaria de Governo, por exemplo, é a indicação do relacionamento do presidente da República com o Centrão. As trocas na Defesa apontam uma tentativa de aparelhamento das Forças Armadas. E o retorno do ministro da Justiça, André Luiz de Almeida Mendonça, para a Advocacia Geral da União, passa a mensagem de que Bolsonaro precisa se blindar de crises futuras. Chamou a atenção, também, que nenhuma das alterações tem por objetivo, por exemplo, conter o avanço da pandemia de coronavírus. Sobre o Itamaraty, quase todos disseram que a permanência de Ernesto Araújo era “insustentável”.

Vice-líder do grupo do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o deputado José Nelto (Podemos-GO) afirmou que o rearranjo no Executivo é resultado direto do discurso de Lira na semana passada. “Não tenha a menor dúvida. O Lira mandou um recado e o presidente abriu as portas do Palácio para o Centrão. Sem apoio político, ninguém governa ”, afirmou.

O deputado Hildo Rocha (MDB-MA) destacou que, apesar da dança das cadeiras, há pouca alteração real no governo, que “trocou seis por meia dúzia”. “Você leva o Braga Netto para o Comando do Exército, ele já estava na Casa Civil. Leva o Ramos para a Casa Civil, ele já estava na articulação política. Poucas mudanças aconteceram”, opinou.

Para Hildo Rocha, Flávia Arruda terá dificuldades de lidar com outros ministros, principalmente por conta da forte carga ideológica dos nomes próximos a Bolsonaro. “Vão queimar a Flávia. Os ministros não respeitavam o Ramos, não vão respeitá-la”, opinou.

O líder do Podemos no Senado, senador Álvaro Dias (PR), afirmou que Bolsonaro tenta retomar as rédeas do poder sobre o Ministério das Relações Exteriores e o da Defesa. “Em relação ao MRE, havia uma pressão forte dos próprios diplomatas, além dos políticos. O ambiente estava conturbado. Nas Forças Armadas é um pouco diferente, porque o ministro adotou postura de independência e não colocou as coporações a serviço do governo. Isso contrariou o presidente. A Flávia Arruda é o centrão assumindo o comando da política de governo. Dominando a articulação política. O Centrão está podendo, e o presidente está olhando o palanque de 2022. Está fazendo uma opção declarada pelo centrão”, ponderou.

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