Exército e CPI devem confrontar Pazuello após presença em ato no Rio

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O comportamento do general foi classificado como “lamentável” por colegas de farda

Ex-ministro da Saúde, ao lado do presidente Bolsonaro, durante ato político no Rio de Janeiro. (Foto: Pilar Olivares / Reuters)

UOL

O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, escreveu, neste domingo (23), mais um triste capítulo para a sua biografia. Ao participar, sem máscara, de um ato em defesa do presidente Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, o general deixou mais uma vez claro que tem mentido aos brasileiros.

Primeiro, porque ele obedece sim ao presidente. E, também ao contrário do que disse à CPI da Covid, ele não é a favor das máscaras e do distanciamento social.

O comportamento do general, que integra o quadro da ativa do Exército, foi classificado como “lamentável” por colegas de farda, segundos relatos narrados à coluna. Os militares ouvidos não têm participação no governo.

O Comandante do Exército deve evitar, pelo menos no primeiro momento, algum tipo de comunicação pública a respeito do episódio, mas, de acordo com fontes da caserna, é provável que o ex-ministro (que atualmente é adido da Secretaria Geral do Exército) seja cobrado pelo Comandante, general Paulo Sérgio, a dar explicações.

A avaliação é de que o general continua desgastando a imagem da Força e que pode, inclusive, ter desrespeitado o Regulamento Disciplinar do Exército.

Pelas diretrizes militares, quando, em tese, ocorre a prática de infração do Regulamento Disciplinar, o militar é instado a expor suas razões. “É esse o procedimento previsto para que se tome decisão a respeito”, explicou um militar de alta patente.

Nos princípios gerais do Regulamento Disciplinar do Exército, as primeiras considerações afirmam que um militar deve “pautar a sua conduta como a de um profissional correto. Exige dele, em qualquer ocasião, alto padrão de comportamento ético que refletirá no seu desempenho perante a Instituição a que serve e no grau de respeito que lhe é devido”.

Além disso, o mesmo artigo 6 do regulamento afirma que precisa haver “decoro da classe”, ou seja: “valor moral e social da Instituição”. “Ele representa o conceito social dos militares que a compõem e não subsiste sem esse”.

O que Pazuello, de fato, não tem feito é lembrar que ele deveria representar o “valor moral” do Exército.

Possíveis desdobramentos para a carreira militar de Pazuello já são especulados desde a época o ex-ministro passou a ser formalmente investigado no STF (Supremo Tribunal Federal), em janeiro deste ano.

Proteção palaciana

Se entre os militares da ativa o comportamento de Pazuello gerou desconforto e irritação, no Palácio do Planalto o general ganhou ainda mais respeito.

Entre ministros e auxiliares do presidente a avaliação é de que ex-subordinado, que ainda pode ganhar um cargo no governo, tem mostrado lealdade ao presidente.

Justamente por isso, não se acredita em nenhuma punição ao general. Até porque, o próprio ministro da Defesa, general Braga Netto, também participou recentemente de um ato em favor do presidente.

Aqui há uma diferença. Braga Netto é da reserva, mas como ministro da Defesa é quem comanda as Forças Armadas.

CPI promete cobranças

A presença de Pazuello no ato promovido por Bolsonaro na manhã de hoje no Rio de Janeiro provocou perplexidade entre os parlamentares da CPI da Covid. Eles também foram surpreendidos por um pedido feito pelo próprio general para que a comissão o chame novamente para prestar depoimento.

O pleito deve ser atendido na próxima quarta-feira (26), quando os parlamentares vão analisar e votar uma fila de requerimentos. Além de Pazuello, é provável que o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, seja igualmente reconvocado.

A avaliação de membros da CPI é de que Pazuello pode optar por uma nova estratégia de defesa. Ao se aproximar do bolsonarismo “raiz”, participando de um ato público que provocou aglomeração em plena pandemia e sendo festejado por apoiadores do governo, o general ganharia o apoio e a simpatia da massa de seguidores da rede bolsonarista nas redes sociais —algo semelhante com o que já ocorre com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas.

Depois de defender publicamente o uso de máscara e medidas de distanciamento, no primeiro depoimento prestado à CPI, na última semana, Pazuello contrariou tudo o que disse hoje ao participar do ato com Bolsonaro. Chegou à mobilização misturando-se entre os populares, sem qualquer perspectiva de distanciamento. Em cima do palanque, já perto do presidente, o ex-ministro retirou a máscara e discursou para a multidão. Posteriormente, colocou o item de proteção.

Após o fracasso no período em que esteve à frente do Ministério da Saúde (entre maio de 2020 a março de 2021), Pazuello ficou isolado politicamente e passou a ser duramente criticado até mesmo dentro do Exército. Por esse motivo, parlamentares entendem que o general pode estar ensaiando um movimento político, criando de vez raízes dentro do bolsonarismo.

O pedido de reconvocação também foi considerado um balão de ensaio pelos senadores que compõem a ala independente e crítica ao governo somada ao bloco de oposição (congressistas da esquerda). O requerimento já seria votado na próxima quarta de qualquer jeito e, independementemente da manifestação do ex-ministro, provavelmente seria aprovada. A bancada governista é minoria dentro da CPI.

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